sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mercearia

Postado por Pedro_Almada às 17:06
  Vila pequena, era o que havia por entre aquelas bandas. Apenas uma praça, gente bem vestida, coisa de interior que só se vê em quadro pintado a óleo. Asfalto não havia, só rua cheia de pedra, tão parecida era com pé-de-moleque, que dava vontade de morder a cada passo. Poste, só se fosse lampião, mesmo porque eletricidade não se via por ali. Quando o sol ficava dourado, como naquele dia, dava pra assistir, de longe, o passeio que os pardais namoradeiros ensaiavam. Uns se faziam de difíceis, outros logo cediam espaço entre as asas.
O cheiro de café era coisa comum, histórias de dar medo em criança levada eram notórias e, vez ou outra, os mais velhos faziam aquela cessão de causos, só pra ter certeza de que molecada nenhuma iria esquecer das assombrações.
Além da boa gente, tinha casa acolhedora, simples, com janelas de madeira floreadas com cortinas tecidas pelas beatas que, vez ou outra, abandonavam as agulhas para se espetarem em suas próprias línguas. Entre uma casa amarela e outra não sei que cor, tinha uma mercearia. Só uma, onde se vendia de nada um pouco, de tudo muito.
    Na venda o homem servia a todos, mas se lhe pediam o que não tinha, tratava logo de falar “chispa” e já ficava carrancudo.
    Veio tão logo o menino, pequeno, ligeiro, inteligente como velho de muitas vidas, que, como qualquer um da sua idade, gostava de falar e ser respondido. Se não tinha a atenção desejada, logo insistia, até desistir de chatear. Naquele dia, porém, não foi de boa vontade, foi ordem da mãe, que fez o menino deslocar, de casa, até a mercearia.
    - Seu môço, me vê um pouco de simpatia, que é pra mãe faze o mingal.
    - Tem não – diz, carrancudo, o homem da mercearia – agora chispa que eu já vô fechá.
    -Seu môço, então me vê um cadim de alegria, que é pra mãe fazê compota.
    - Tem não. Agora chispa que eu tenho mais o que fazê.
    - Seu môço, vê então se tem um poquinho só de boa-fé, que é pra mãe fazê pão doce.
    O seu môço logo se impacientou.
    - Tem aqui não, diacho. Agora foge, se não chamo o delegado.
    - Ô, seu môço. Intão o que o senhor tem aí pra mãe cozê?
    - Só sobrô saudade, se ocê quisé...
    Menino faz cara de quem pensa muito, depois diz, sorrindo:
    - Quero não. Lá em casa ainda sobrô um cadim de esperança.
    - Ah! – logo sorri o dono da mercearia, já interessando no produto de seu intento – Esperança? Sinhora sua mãe num vende não?
    - Ah, não, seu môço. Esperança tem, mas cabô de acabá o restim da boa-vontade que tinha. Vô-me embora, pra num incomodá o seu delegado.
    E sai rindo o menino, endiabrado, da cara do moço que tinha de nada um pouco, de tudo muito.

1 comentários:

Lilo on 22 de janeiro de 2012 19:05 disse...

Olá!!!
Belo texto, adorei a parte: "espetarem em suas próprias línguas."
Um causo de esperança, ou da falta de qualquer outro bom sentimento.
Gostei bastante.
Beijos e sucesso.
Lilo
Redenção, já em pré-venda

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