quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Roda de leitura #02

Postado por J. Carl às 15:13
Literatura infanto-juvenil-adulta? Existe?


Depende. Este que vou apresentar é um livro para neoleitores sim. Mas quem disse que não pode sair um bom debate daí? Tome-se então Dinheiro do céu, livro escrito por Marcos Rey e que foi pauta de minha mais recente resenha. É infanto juvenil, mesmo assim, há o que se falar sobre ele. E isso eu percebi quando estava escrevendo a resenha*.

A proposta de Dinheiro do céu é ilustrar o intricado mundo dos adultos no qual passa a viver o personagem principal, Dani Marino, e, com isso, dar uma visão mais realista da vida aos leitores juvenis. Em outras palavras, pode-se dizer que o livro já tenta por si só, aproximar os leitores da maturidade, digamos assim, porque aqui não tem nenhum adereço ou enfeite para o interesse do público. O autor não escreveu sobre mágicos, vampiros, anjos ou qualquer outra apelação para "atrair" os leitores e que, ao mesmo tempo, quebra a expectativa da linha de verossimilhança. Pelo contrário, a história trata da nossa realidade e das pessoas de nossa cidade.

Fora isso, Dinheiro do céu é escrito no gênero romance, que pra mim é o grande gênero da literatura. E a forma narrativa é a melhor que se tem: primeira pessoa. Então, o que podemos entender é que este livro para neoleitores é um convite à literatura verdadeira. Tout Court por exemplo.

Mas falemos logo do que importa, a história. No livro, não há suspense ou investigação. O enredo apenas enfeixa as emoções, as barreiras e os conflitos do jovem de 16 anos, Dani Marino.  São muitas surpresas que acontecem. E durante todas essas reviravoltas, a história permite vislumbrar o "rito de passagem" do personagem principal: da inexperiência da juventude até a maturidade, a fase adulta, que lhe é tão cobrada.

O intricado mundo dos adultos é o grande contexto do livro. Então, é claro que deve estar aí a principal preocupação adulta: condição financeira. Vale-me aqui contar a sinopse: título e capa são explicados pelo fato de Don Francesco viajar à Itália para buscar uma herança. E aí, toda a família Marino fica na expectativa para que o nono volte com o saco de liras e os torne ricos, de fato. É justamente esse ponto que influi e dá os contornos à todos os personagens. Essa é a minha interpretação, porque cada pessoa lá que aparece, emite uma opinião sobre as diferenças sociais, e a injusta distribuição desigual de renda.

A começar pelo próprio Dani. Ela começa um namoro com Mafalda, apesar dela ser de família rica. Muita gente no bairro do Bexiga os vê com maus olhos devido à diferença social entre eles, mas Dani acha que "tem nada a ver" já que as duas famílias se conheciam no bairro quando as duas eram da mesma classe. A família de Mafalda (Rinaldi se não me engano) prosperou e enriqueceu. A família Marino não. Porém isso iria mudar, afinal o nono vem com o saco de liras não?

Quem não concorda com o namoro entre os dois é a mãe de Dani. E quando este lhe pergunta  "por quê?" Romilda lhe responde, muito pensativa: "O dinheiro muda as pessoas". Essa máxima foi o grande detalhe do livro. Inclusive, o principal e que mais merece destaque. Veja só: Farid corteja a irmã de Dani interessado na herança. E Roberto, outro irmão, leva uma vida rica e luxuosa sem o conhecimento da família porque odeia a miséria. Fora estes, cita-se: Atílio, pai de Dani, com sua expressão sempre usada nos momentos de resignação ("e a vida continua"), Mandrake ("Os grandes mágicos são os milionários") e o boa-vida Tio Salvador cuja participação é decisiva no amadurecimento de Dan. 


Como?


Após Mafalda lhe dar um fora no grande dia do baile, Tio Salvador comenta: "Ela gostava de você. De verdade. Mas o fato é que ela cresceu, disparou na sua frente. Seus planos já são do tipo casamento enquanto o futuro que você pensa só vai até o dia do baile. [em putras palavras: cresça Dani! ]Ela já é moça formada e você ainda é um molecote, entende?". Em outra situação, o mesmo personagem comenta com Dan: "acho que sou o último dos tios Salvador. O último boa vida da família". A forma direta dele falar com Dan poderia ser traduzida como "Não tem essa de esperar o dinheiro cair do céu. O bom mesmo é cair na realidade, arregaçar as mangas e acordar cedo para trabalhar".

E é isso que faz Dani no final da história. "Agora estou andando pela cidade a caminho do centro. Não sou mais o caçula, nem Dan, nem Dani. O que foi passado já pus em palavras. Piso novas calçadas. No bolso, levo recortes de firmas que solicitam empregados. Vão me olhar dos pés a cabeça, fazer perguntas, apresentar testes. E daí? (...) acho que tudo vai sair bem. Piso mais firme. Enfrentarei claro, dificuldades - sempre é assim. Olho pra frente, vai dar certo. Aperto o passo. O futuro é como um ônibus, não posso perdê-lo."


Adulto né?! Por isso, entendo Dinheiro do céu como um livro que é uma ligação para a maturidade. Maturidade que digo, verossimilhança. Da vida, e da literatura.


*Tenho pra mim que resenha é o momento em que você toma um posicionamento crítico diante do livro. E não falo isso apenas por falar. Houve duas vezes em que eu li um livro, mas só consegui 'captar' a essência e entender o contexto, o que o livro significava, quando precisei raciocinar ao escrever a resenha. Por isso essa espécie de texto de opinião (resenha) é tão importante para um blog literário ou para quem se dispõe a falar sobre livros (o que é diferente de falar de livros e dar notícia da existência de livros).


1 comentários:

Lilo on 4 de dezembro de 2011 19:25 disse...

Uau, que textão! Mas eu li e gostei bastante do que vi. O livro parece bem interessante, ainda mais para o público-alvo... Eu no momento não estou na "vibe" desse tipo de leitura, mas com certeza é uma boa pedida.
Valeu a dica.
Abraços
Lilo
Redenção

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